terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Sem som

Meus pés estão frios, minhas mãos congeldas, meu corpo estático sente o sangue endurecer, o cérebro esvaziar. A banheira está ali ao meu lado, quente, reconfortante, acolhedora. Ela é tudo o que sempre sonhei.
Luto contra minha inércia e avanço sobre ela. Toco sua superfície com a mão direita e me vejo corar, sinto o calor, a paz, o alívio daquela nova temperatura. Ainda cuidadosa, deposito meu pé direito no fundo daquele imenso caldeirão retangular, faço a mesma coisa com o pé esquerdo e aos poucos, com medo de me entregar cedo aos encantos de alguns segundos de conforto, de calor, passo a repousar ali.
Fico submersa até o pescoço e sorrio. Sorrio sem motivo, sem querer, como se minha felicidade escapasse por entre meus lábios e deitasse naquelas águas ainda mornas e chamativas. Fecho os olhos com palpebras corais, enconsto a cabeça para trás e me deixo levar sob meu aconchego.
Sou feliz, estou feliz. Ali sozinha é a água quem me conforta, da janela vejo as gotas de chuva molharem a rua, as pessoas agora frias. Sinto um calafrio quando penso nas pessoas frias, elas nunca tiveram uma banheira de água quente em suas vidas. Sinto pena, sinto dó.
Adormeço e ao acordar a água fria me congela. Minha garganta fecha, minhas mãos repousam fechadas ao lado de meu corpo, meus olhos estáticos fitam o teto, o branco e imoral teto de meu banheiro. Meu corpo está rígido, meus pensamentos pesados, minha solidão assustadora.
Morri em águas geladas enquanto sonhava com a quentura de um banho anterior.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Descobri

Quando descobri que me apaixonei por você, me lembro de ter negado todo aquele sentimento. Tentei arrancar com os dedos o seu rosto de minha mente, o seu cheiro de meus cabelos, a vontade de você do meu corpo.

Tentei fugir da minha dor, da minha cidade, da minha vida. Neguei até o fim que te amava, neguei até o fim que sua falta me fazia chorar, neguei até o fim que precisava de você, mas bastou seu olhar faceiro, suas mãos firmes, seu abraço reconfortante para que eu pensasse em me entregar.

Pensei em te deixar entrar em minha vida, em te contar meus segredos, meus medos, meus sonhos. Pensei em te mostrar o caminho do meu coração e te dar passe livre no meu cotidiano, pensei em você mais do que pensei em qualquer pessoa.

Sorri, fiquei boba, eufórica, amoleci e deixei meu medo de lado. Eu estava entregue, estava preparada para amar. Mas você não. Me deixou confusa, tomou iniciativa e recuou. Fez com que eu me sentisse amada, desejada, mas no fim me deixou sozinha e perdida em mim mesma.

Foi amando você que descobri que o amor machuca, que fere, que dói, mas que alegra, que sorri, que acalenta, que apenas se entrega por completo. Foi amando você que descobri que amor e ódio coexistem e te despedaçam aos poucos, de dentro pra fora.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A facada não vem do inimigo

Fuçar sempre foi meu trabalho, fuçar não, pesquisar. Era fascinante ir descobrindo aos poucos tudo o que você quer saber, é excitante vasculhar, ligar os pontos, montar um quebra-cabeça e dizer, fui eu quem cheguei a essa conclusão. Era esse o meu trunfo, meu diferencial. Era. De verdade, o que eu queria fazer, o que sonhei fazer, e do que esperava viver. Mas como disse, era.
Tudo porque meu trunfo virou meu vício, e eu me peguei vasculhando tudo, tentando ligar todos os pontos, montando quebra-cabeças diferentes com peças antagônicas. Eu tentei, eu forcei o encaixe, mas ele não ia, emperrava, chegou até a rasgar e ceder um pouco, mas não era o encaixe perfeito e mais, não formou imagem alguma depois das peças estarem juntas.

Mas melhor voltar ao meu ofício, como todo metido a detetive um estalo me levou a um caminho sem volta, era preciso agir no impulso, sem deixar rastros, pistas ou manchas. Não sei se consegui, provavelmente não. Tudo porque não me dei conta que essa investigação era diferente de todas as outras, ela envolvia algo com o qual nunca me dei muito bem, o sentimento.

Quando abri a pasta que faltava eu já sabia o que esperar. Mesmo não acreditando consegui ver com os meu olhos de São Tomé que o inimigo mora ao lado, não se importa com seus sentimentos e só quer mesmo é se dar bem, independente do que realmente deseja.

Bem, comigo nunca foi assim, eu não entendo o interesse exacerbado no material, tenho nojo de quem age pela carteira e sinto pena de quem se submete a isso. Tudo isso porque tenho orgulho e medo de ser o que sou, de pensar como penso e de viver com a convicção de que o conteúdo do livro vale mais do que sua capa e, que nem o melhor e mais bonito frasco do mundo fará jus a fragância que escolhi. Que nada nem ninguém tem o direito de passar por cima do sentimento de alguém para conseguir o que quer.

Eu ainda acredito no respeito, no amor, na justiça, no conhecimento, nesse acima de todos os outros. Porque é burrice pensar que não exista no mundo alguém que investigue o suficiente para descobrir que você mentiu, deu trela, deu esperança, se jogou, deu abertura, mas não foi retribuida e partiu para outra.

Mas nem isso foi capaz de me deixar feliz, apenas porque eu sei o que sempre soube, nada do que fiz por você, nem as coisas que abdiquei por você te tornaram uma pessoa melhor. Não. você está cada dia mais distante de ser o quer mostrar ser e, eu, apesar da decepção e do arrependimento, sei que me tornei algo que você jamais será. Uma pessoa de caráter.

domingo, 6 de novembro de 2011

Monstros

Existe um mundo onde somos tudo, onde criamos tudo, onde estamos sempre presentes. Um mundo no qual nada nos magoa, nada nos reprime, ninguém nos exclui. Existe um mundo onde sou tudo, onde crio tudo, onde estou sempre presente. Um mundo no qual nada me magoa, nada me reprime, ninguém me exclui. Esse mundo existe, e me torna cada dia mais fraca, mais vulnerável, mas atingível, apenas porque eu percebo que no mundo onde vivo as coisas são sempre opostas ao que eu queria que fossem. Eu sou o oposto do que gostaria de ser. Porque nesse mundo do qual me abstraio tenho apenas que matar meus monstros para conseguir viver, mas a verdade é que eles, a cada dia que passa, me engolem um pouco mais e, então, eu volto a fugir para o meu mundo.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Um ensaio de vida

A noite estava inquietada, enquanto a lua avançava para o ponto mais alto do céu o carro se aproximava de seu destino. A casa pequena tinha uma porta antiga na entrada decorada com rosas vermelhas que exalam um cheiro fúnebre, quase amargo. Nos cômodos escuros tudo era inquietação, a cada som eu rotacionava meu corpo e sentia o coração aos pulos tentar escapar de minha língua, via tudo cada vez mais embaçado, confuso.

Aos pulos avancei por entre as portas semi abertas, vesti um manto silencioso, cuidadoso, quase inaudível. Do andar de cima escutei a respiração forte, o arrastar do móvel, o estalar dos ossos. Deslizei pela escada como um fantasma e me vi parada em frente a uma porta branca, com rachaduras e pequenas gotas vermelhas. Me virei tentando desistir. Na parede oposta um espelho cintilava minha feição fantasmagórica, meus olhos fundos e escuros, minha boca triste, minha expressão duvidosa.

Com um empurrão afastei a entrada de meu corpo e tudo pareceu desmontar. Enquanto permaneci imóvel eles se mexeram freneticamente em sentidos opostos, soltei um grunido de dor de meu peito e a cabeça mais alta se virou ao meu encontro. Seus olhos estavam inexpressiveis, mas seu rosto se enchia de dor e prazer. Quando me dei conta reconheci o corpo menor ainda em choque. Corri, como se a casa não tive saída, tropecei em uma mochila, arranquei um bolsa da cadeira.

Passos nervosos ressoavam no piso de madeira. Meu nome foi gritado uma, duas, dez vezes. Quando alcancei a noite enluarada e dei a partida no mortor vi seu corpo seminu brilhar com o suor que escorria de seu peito. Com as mãos sobre o capo, uma fina luz da lua me mostrou arranhões e hematomas que eu nunca tinha visto. Avancei enquanto ele desviava de meu carro.
Não vi o sinal vermelho, avancei sem medo e fui atingida pela esquerda, senti um líquido quente escorrer por minhas pernas, ouvi sirenes, ambulâncias, bombeiros.

Um rapaz jovem e de olhos claros desabotoou o cinto e me carregou até uma maca. Gritando ele avisou aos médicos já na emergência do hospital sobre o acidente. Berraram, uma pontada de dor me fez perder o ar, aos poucos a dor ia aumentando, até que eu ouvi um choro.

Meu filho estava nas mãos do médico, roxo, implorando por ar. Não consegui pegá-lo em meus braços, duas horas depois me avisaram que ele estava na UTI. Procedimento normal para um recem nascido prematuro.Enquanto me davam algum remédio perguntei mais, mas não ouvi as respostas.

No dia seguinte acordei com a porta se abrindo e meu filho sendo depositado em meus braços. Enquanto um lágrima feliz e solitária escorria dos meus olhos, vi sua sombra parada na porta imóvel, seus olhos agora tinham vida, e também tinham dúvidas. Outra lágrima, magoada e nervosa escorreu de meus olhos. Ele avançou, eu apertei a campainha. O rapaz de olhos claros entrou as pressas, viu meu olhar pesado sobre ele e o afastou, olhei insegura para o bebê em meu colo e toquei suas bochechas.

Ele agarrou meu dedo, abriu os olhos e sorriu!

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Com o passar do tempo

As vezes eu me pego pensando no futuro, mas não em uma coisa distante, em dois, três dias, ou ouso até uma semana. Desde cedo aprendi a não fazer planos, a não contar com ajuda, a não esperar ombros amigos. Aprendi que a única coisa que se pode esperar em uma relação é a decepção.

Tenho amigos que afirmam que eu não acredito no amor. Se em algum momento disse isso, foi uma infelicidade, pois agora eu percebo que sempre acreditei no amor. Até descobrir que ele é o produto de uma mente cheia de desejos e falsas esperanças. Porque no fundo não importa se ele é bom ou ruim, alguém sempre vai sair machucado, e esse alguém constantemente sou eu.

É engraçado pensar que a maior parte de nossas mágoas parte das pessoas que mais amamos, cinismo meu seria dizer que eu nunca decepcionei alguém que me ame também. Se não o fiz, com certeza o farei em breve. Porque a vida é assim, cheia de provas e provocações. Não para separar o joio do trigo, mas para ensinar que tudo se conquista com uma boa dose de solidão e egoísmo.

Sempre quando meu aniversário chega eu coloco na balança o que fiz em um ano da minha vida. Em 2011 o saldo não poderia ser mais negativo. Irritada e estressada com muita coisa eu as vezes só preciso de um apoio que não vem de nenhum lado.

Mas isso é outra história.

O que eu aprendi com o passar do tempo é que nem sempre sigo o que falo, mas sempre faço isso com uma vontade enorme de quebrar minha cara e mostrar que diferente do que pensam eu não sou feita de lata.

"Porque o verddeiro inferno nada mais é do que uma vida que não deu certo."

quinta-feira, 10 de março de 2011

Enquanto ele não vem

Certa vez eu me perguntei como seria a sensação de ser amada. Amar é fácil, é como ser levada por uma correnteza nadando a seu favor, mas ser amada deve ser um pouco diferente.
Nessa mesma ocasião meu perguntei se um beijo de amor e tão diferente de um beijo de tesão, se os valores são diferentes, se o contato corporal muda.

Não sei ao certo que me fez pensar nisso, talvez fossem as lágrimas que me escaparam dos olhos teimosos que fitavam o casal no parque, talvez fosse o soluço sorrateiro que pulou de minha boca logo depois de ouvir meu amigo de ônibus dizendo "Eu Te Amo" ao telefone. Pode até ser o fato de ter percebido que o amor sempre me fez falta, mesmo eu negando, mesmo desdenhando.

Mas foi de amor como afeto, como carinho, como saudade que eu senti falta. Foi de amor como toque, como cheiro, como gosto. Eu senti falta do amor como ele não sentiu de mim. E enquanto ele passa disfarçado ao meu lado, tentando esconder seu rosto em outros tantos que cruzam meu caminho, eu vou seguindo solitária, vendo o amor de uma janela, de um banco, de um quadro. Acreditando que eu não mereça o amor e, que talvez ele tenha percebido isso.